segunda-feira, 2 de outubro de 2017

ETELVINA SIQUEIRA: “A mãe da intelectualidade feminina de Sergipe”.


Por: Allan de Oliveira.
Contato: allantbo@hotmail.com

A poetisa, contista, jornalista, e oradora Etelvina Amália de Siqueira, considerada a pioneira da intelectualidade feminina em Sergipe, nasceu no município de Itabaiana em 5 de novembro de 1872, sendo filha do escrivão José Jorge de Siqueira e de Dona Rosa Maria de Siqueira. Cursou o primário em Itabaiana e anos depois se mudou com a família para Aracaju.

Na capital sergipana, foi aprovada num exame de seleção, ingressando na Escola Normal do Asilo Nossa Senhora da Pureza, destacando-se por sua inteligência e dedicação aos estudos, e se tornando professora em 1884. Fundando depois o seu próprio colégio particular de ensino primário e secundário no período de 1885 a 1890, e trabalhou também na Escola Normal como professora e Auxiliar do diretor dessa instituição.

Etelvina Siqueira escreveu discursos e artigos em diversos jornais sergipanos como “O Libertador”, “O Planeta”, “Gazeta de Sergipe” e o “Estado de Sergipe”, bem como no jornal rio-grandense “A Discussão”.

Foi uma mulher que lutou pelo fim da escravidão no Brasil, chegando a dar aulas gratuitas para os filhos libertos das escravas na casa do seu tio Francisco José Alves. Sendo participante da campanha abolicionista na Sociedade Libertadora Sergipana. Lutando também em prol da educação e da literatura sergipana, tendo grande importância como grande oradora brasileira e autora de vários hinos escolares.

A autora escreveu sonetos e poemas em redondilhas maiores e menores. Neles são tratadas temáticas sobre nostalgia, abolicionismo, exaltação a personalidades do seu tempo e à natureza, defesa da educação e dos direitos das mulheres do século XIX.

De acordo com o Dicionário Biobibliográfico Sergipano de Armindo Guaraná, Etelvina Siqueira escreveu:
– Discurso proferido na “Cabana de Pai Thomaz” no dia 2 de dezembro de 1883. No “O Libertador” e no “O Planeta”, do Aracaju de 8 do mesmo mês.
– A escravidão e a mulher. Na “Gazeta do Aracaju”, de 15 de dezembro do mesmo ano. Transcrito na “A Discussão” de Pelotas, Rio Grande do Sul, de 17 de julho de 1884.
– Pequenos voos: contos. Aracaju, 1890, 39 págs. in. 8º pg. Tip. da “Gazeta do Aracaju”.
– Discurso pronunciado a 15 de agosto de 1911 no ato da inauguração do edifício destinado para a Escola Normal e Escolas Anexas. No “O Estado de Sergipe” de 17 do mesmo mês.
– Discurso pronunciado a 15 de agosto de 1911 por ocasião de ser colocado no salão nobre da Escola Modelo e Anexas do Aracaju o retrato do Exmo. Presidente do Estado, Dr. José Rodrigues da Costa Dória. No referido jornal de 17 do mesmo mês.

Etelvina Siqueira faleceu em Aracaju em 10 de março de 1935, solteira e na pobreza.


ALGUNS POEMAS:

MINHA TERRA

Minha terra é uma criança
Sempre risonha, não chora,
Encantada das belezas
Com que a natureza a aflora.

Uma fada, um anjo, uma musa
Não sei o que diga dela
A magnólia que enfeita
As tranças de uma donzela!

É o segredo que expira
Nos lábios do vendaval;
É a estrela vespertina,
Tem encantos sem igual.

É o bogarim que balouça
Tremendo fresco no hastil;
É a campesina faceira,
Garbosa, bela e gentil!

É o rouxinol a encantar-nos
Quando a tardinha o convida;
Foi lá que eu senti prazeres,
Que vivi, meu Deus! Que vida!

                  II

À sombra dos adustos cajueiros
Aspirando o perfume de seu seio,
Eu gozei dos anjos a harmonia,
As aventuras do céu, que doce enleio!

Saltitando em seus campos de boninas,
Lá na infância que fugiu e não vem mais,
Eu era como as rosas matutinas,
Orvalhavam-me os beijos dos meus pais.

Abraçada à cintura da irmãzinha,
Que brincava como eu, forte e ligeira,
Íamos juntas, nas asas da alegria
As flores raptar da laranjeira.

Tínhamos flores, cantos e perfumes,
Pássaros, borboletas, mil brinquedos,
Improvisávamos lindas barraquinhas,
À sombra dos frondosos arvoredos.

Quando o sino plangente da matriz
Convidava os fieis à devoção,
Minha mãe, esse arcanjo de doçura,
Nos levava contente pra oração.

Minha terra é bonita mais que as outras,
É vaidosa princesa do sertão,
Tem seu leito num campo de verdura,
E por leque a mais pura viração.

Os raios do sol diamantino
Brilham mais que os aljôfares do Ceilão,
Do seu luar, na palidez que mata,
Se resume de Deus a criação.

                  III

Tem uma serra orgulhosa
Invejada no Brasil
Ribeirinhos cor de prata
E um céu de puro anil.

Quando a tempestade surge,
Ao ribombar do trovão
Não lhe míngua o encantamento
Há mais fé no coração.

Não tendo flores viçosas
Que te lance ao lindo colo,
Aceita, mãe, a saudade
Que colhi em estranho solo.

Recebe a prova singela
Que te manda a filha ausente.
Reparai – vai orvalhada
De um pranto ainda quente.


SONETO

Rompia a aurora louçã, perfumosa,
Seus gratos odores deixando no prado,
Tremiam ainda no céu estrelado
Carimbos luzentes. Que cena formosa!

Cantando travessa, gentil e garbosa,
Descalça, risonha, cabelo adornado
De flores silvestres, andar requebrado,
Sorvendo perfumes na boca mimosa.

A filha das serras, a virgem selvagem
Passava, de rosas arfando-lhe o seio,
Os bastos cabelos brincando co’a aragem.

Feliz, descuidosa, sem dor, sem receio,
E a brisa fagueira, na mansa passagem,
A face morena beijava-lhe em cheio.


A FAUSTO CARDOSO
(Recitada ao pé do seu túmulo, no dia 28 de agosto de 1907)

Silêncio, dizem-no ouvir, nota por nota,
O soluçar do povo sergipano!
Mais esta prova de amor e de saudade
Àquela alma valente de espartano!

Águia, no seu giro altivolente,
Correu em busca deste ninho amado;
De altivos ideais embevecido,
Vinha bater os erros do passado.

Nada de ódios; no seu peito nobre
Não se abrigava um sentimento vil,
Fascinava-o a glória de Sergipe,
Esta nesga inditosa do Brasil!

Como o loiro profeta da Judeia,
Teve a cruz e o suplício do Calvário,
Lenho sagrado – a Pátria estremecida,
O Horto – a carabina de um sicário.

Que nênias tristes, que saudade funda,
Deixaste n’alma de Sergipe inteiro!
Mas o teu sangue nos remiu, herói,
Da liberdade ardente pregoeiro!

Adeus, adeus, oh! Fausto, aí te ficam
Todas as flores de minha alma pura!
Que os prantos de Sergipe, agradecido
Te orvalhem sempre, sempre a sepultura.


AO “AMIGO DO ESCRAVO”

Marchai, oh! Astro de glória!
O mundo é vosso, correi!
O empenho é árduo, terrível,
Embora – lutai e vencei!

Mocidade, escuta o eco
Da antiga Jerusalém,
Soltado, a morrer de amores
Por Deus, o supremo Bem!

Quem no berço, inda oscilante,
Vos daria tanta luz
Senão a harmonia maga
Dos gemidos de Jesus?

Quase exangue, saturada
Da torpeza, a vil Judeia
Viu expirar em seu seio
A redentora epopeia!

Infeliz! Cega e perdida,
Não via que o crime atroz
Velava-lhe a negra fronte
Em denso crepe, veloz!

Não via que a humanidade
Herdara do seu Jesus
As bagas quentes do pranto,
Dos olhos a meiga luz!

Cativo um povo, gemendo
Da vergasta o açoite vil,
Estende os braços convulsos
Vertendo prantos a mil...

Vós despertastes ao grito
Da infeliz escravidão;
Somos amigos, dissestes,
Dos míseros que não têm pão.

Quanta doçura, Deus grande,
Quanta fé e quanto amor,
Nesta esperança que brilha
Do cativeiro no horror!

Remir no mundo os escravos
É curar de Cristo as chagas;
Marchai! Que o suor da luta
Vos doure a fronte em bagas.

Quando um dia o sol brasíleo
Surgir, mimoso de amor,
Aquecendo as faces frias
Do escravo ao seu calor.

Estátuas de luz e vida,
Mil renascido à toa,
Tentarão roubar seus raios
Para tecer-vos uma croa!

Ide, librai vossas asas
Da fé no dorso possante!
Acordai Deus, que aniquile
A hidra negra, infamante.


A GUILHOTINA

A guilhotina! E és tu oh! França gloriosa,
Ninho do saber, do bem, da liberdade,
De Mirabeau a pátria nobre e grandiosa
Que guardas em teu seio tamanha iniquidade?!!

Invoquemos de Hugo a alma generosa,
Inundando de amor o peito à mocidade;
E esta, sempre grande, a folha vergonhosa
Ao código francês arranque, por piedade!

A guilhotina! O monstro horripilante!
Dê-se o cárcere, a treva ao infeliz que errou;
Punir assassinando, é vil, é infamante!

E tu, berço de herves, altiva e triunfante,
Não houves aterrada, ao colo que tombou,
No último estertor o grito lancinante?


REFERÊNCIA:

Dados biográficos da poetisa Etelvina Amália de Siqueira.

Dicionário Sergipano de Armindo Guaraná – por Luiz Antônio Barreto.

Etelvina Amália de Siqueira. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Etelvina_Am%C3%A1lia_de_Siqueira>. Acesso em: 18 de ago. de 2015

Etelvina Amália de Siqueira (1862-1935). Disponível em: <http://academialiterariadevida.blogspot.com.br/p/6-etelvina-amalia-de-siqueira.html>. Acesso em: 18 de ago. de 2015

Etelvina Siqueira. Disponível em: <http://bagaceiratalhada.com.br/4-poetisas-sergipanas-e-a-quebra-de-paradigmas-nos-seculos-xix-e-xx/>. Acesso em: 18 de ago. de 2015


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