segunda-feira, 2 de outubro de 2017

ETELVINA SIQUEIRA: “A mãe da intelectualidade feminina de Sergipe”.


Por: Allan de Oliveira.
Contato: allantbo@hotmail.com

A poetisa, contista, jornalista, e oradora Etelvina Amália de Siqueira, considerada a pioneira da intelectualidade feminina em Sergipe, nasceu no município de Itabaiana em 5 de novembro de 1872, sendo filha do escrivão José Jorge de Siqueira e de Dona Rosa Maria de Siqueira. Cursou o primário em Itabaiana e anos depois se mudou com a família para Aracaju.

Na capital sergipana, foi aprovada num exame de seleção, ingressando na Escola Normal do Asilo Nossa Senhora da Pureza, destacando-se por sua inteligência e dedicação aos estudos, e se tornando professora em 1884. Fundando depois o seu próprio colégio particular de ensino primário e secundário no período de 1885 a 1890, e trabalhou também na Escola Normal como professora e Auxiliar do diretor dessa instituição.

Etelvina Siqueira escreveu discursos e artigos em diversos jornais sergipanos como “O Libertador”, “O Planeta”, “Gazeta de Sergipe” e o “Estado de Sergipe”, bem como no jornal rio-grandense “A Discussão”.

Foi uma mulher que lutou pelo fim da escravidão no Brasil, chegando a dar aulas gratuitas para os filhos libertos das escravas na casa do seu tio Francisco José Alves. Sendo participante da campanha abolicionista na Sociedade Libertadora Sergipana. Lutando também em prol da educação e da literatura sergipana, tendo grande importância como grande oradora brasileira e autora de vários hinos escolares.

A autora escreveu sonetos e poemas em redondilhas maiores e menores. Neles são tratadas temáticas sobre nostalgia, abolicionismo, exaltação a personalidades do seu tempo e à natureza, defesa da educação e dos direitos das mulheres do século XIX.

De acordo com o Dicionário Biobibliográfico Sergipano de Armindo Guaraná, Etelvina Siqueira escreveu:
– Discurso proferido na “Cabana de Pai Thomaz” no dia 2 de dezembro de 1883. No “O Libertador” e no “O Planeta”, do Aracaju de 8 do mesmo mês.
– A escravidão e a mulher. Na “Gazeta do Aracaju”, de 15 de dezembro do mesmo ano. Transcrito na “A Discussão” de Pelotas, Rio Grande do Sul, de 17 de julho de 1884.
– Pequenos voos: contos. Aracaju, 1890, 39 págs. in. 8º pg. Tip. da “Gazeta do Aracaju”.
– Discurso pronunciado a 15 de agosto de 1911 no ato da inauguração do edifício destinado para a Escola Normal e Escolas Anexas. No “O Estado de Sergipe” de 17 do mesmo mês.
– Discurso pronunciado a 15 de agosto de 1911 por ocasião de ser colocado no salão nobre da Escola Modelo e Anexas do Aracaju o retrato do Exmo. Presidente do Estado, Dr. José Rodrigues da Costa Dória. No referido jornal de 17 do mesmo mês.

Etelvina Siqueira faleceu em Aracaju em 10 de março de 1935, solteira e na pobreza.


ALGUNS POEMAS:

MINHA TERRA

Minha terra é uma criança
Sempre risonha, não chora,
Encantada das belezas
Com que a natureza a aflora.

Uma fada, um anjo, uma musa
Não sei o que diga dela
A magnólia que enfeita
As tranças de uma donzela!

É o segredo que expira
Nos lábios do vendaval;
É a estrela vespertina,
Tem encantos sem igual.

É o bogarim que balouça
Tremendo fresco no hastil;
É a campesina faceira,
Garbosa, bela e gentil!

É o rouxinol a encantar-nos
Quando a tardinha o convida;
Foi lá que eu senti prazeres,
Que vivi, meu Deus! Que vida!

                  II

À sombra dos adustos cajueiros
Aspirando o perfume de seu seio,
Eu gozei dos anjos a harmonia,
As aventuras do céu, que doce enleio!

Saltitando em seus campos de boninas,
Lá na infância que fugiu e não vem mais,
Eu era como as rosas matutinas,
Orvalhavam-me os beijos dos meus pais.

Abraçada à cintura da irmãzinha,
Que brincava como eu, forte e ligeira,
Íamos juntas, nas asas da alegria
As flores raptar da laranjeira.

Tínhamos flores, cantos e perfumes,
Pássaros, borboletas, mil brinquedos,
Improvisávamos lindas barraquinhas,
À sombra dos frondosos arvoredos.

Quando o sino plangente da matriz
Convidava os fieis à devoção,
Minha mãe, esse arcanjo de doçura,
Nos levava contente pra oração.

Minha terra é bonita mais que as outras,
É vaidosa princesa do sertão,
Tem seu leito num campo de verdura,
E por leque a mais pura viração.

Os raios do sol diamantino
Brilham mais que os aljôfares do Ceilão,
Do seu luar, na palidez que mata,
Se resume de Deus a criação.

                  III

Tem uma serra orgulhosa
Invejada no Brasil
Ribeirinhos cor de prata
E um céu de puro anil.

Quando a tempestade surge,
Ao ribombar do trovão
Não lhe míngua o encantamento
Há mais fé no coração.

Não tendo flores viçosas
Que te lance ao lindo colo,
Aceita, mãe, a saudade
Que colhi em estranho solo.

Recebe a prova singela
Que te manda a filha ausente.
Reparai – vai orvalhada
De um pranto ainda quente.


SONETO

Rompia a aurora louçã, perfumosa,
Seus gratos odores deixando no prado,
Tremiam ainda no céu estrelado
Carimbos luzentes. Que cena formosa!

Cantando travessa, gentil e garbosa,
Descalça, risonha, cabelo adornado
De flores silvestres, andar requebrado,
Sorvendo perfumes na boca mimosa.

A filha das serras, a virgem selvagem
Passava, de rosas arfando-lhe o seio,
Os bastos cabelos brincando co’a aragem.

Feliz, descuidosa, sem dor, sem receio,
E a brisa fagueira, na mansa passagem,
A face morena beijava-lhe em cheio.


A FAUSTO CARDOSO
(Recitada ao pé do seu túmulo, no dia 28 de agosto de 1907)

Silêncio, dizem-no ouvir, nota por nota,
O soluçar do povo sergipano!
Mais esta prova de amor e de saudade
Àquela alma valente de espartano!

Águia, no seu giro altivolente,
Correu em busca deste ninho amado;
De altivos ideais embevecido,
Vinha bater os erros do passado.

Nada de ódios; no seu peito nobre
Não se abrigava um sentimento vil,
Fascinava-o a glória de Sergipe,
Esta nesga inditosa do Brasil!

Como o loiro profeta da Judeia,
Teve a cruz e o suplício do Calvário,
Lenho sagrado – a Pátria estremecida,
O Horto – a carabina de um sicário.

Que nênias tristes, que saudade funda,
Deixaste n’alma de Sergipe inteiro!
Mas o teu sangue nos remiu, herói,
Da liberdade ardente pregoeiro!

Adeus, adeus, oh! Fausto, aí te ficam
Todas as flores de minha alma pura!
Que os prantos de Sergipe, agradecido
Te orvalhem sempre, sempre a sepultura.


AO “AMIGO DO ESCRAVO”

Marchai, oh! Astro de glória!
O mundo é vosso, correi!
O empenho é árduo, terrível,
Embora – lutai e vencei!

Mocidade, escuta o eco
Da antiga Jerusalém,
Soltado, a morrer de amores
Por Deus, o supremo Bem!

Quem no berço, inda oscilante,
Vos daria tanta luz
Senão a harmonia maga
Dos gemidos de Jesus?

Quase exangue, saturada
Da torpeza, a vil Judeia
Viu expirar em seu seio
A redentora epopeia!

Infeliz! Cega e perdida,
Não via que o crime atroz
Velava-lhe a negra fronte
Em denso crepe, veloz!

Não via que a humanidade
Herdara do seu Jesus
As bagas quentes do pranto,
Dos olhos a meiga luz!

Cativo um povo, gemendo
Da vergasta o açoite vil,
Estende os braços convulsos
Vertendo prantos a mil...

Vós despertastes ao grito
Da infeliz escravidão;
Somos amigos, dissestes,
Dos míseros que não têm pão.

Quanta doçura, Deus grande,
Quanta fé e quanto amor,
Nesta esperança que brilha
Do cativeiro no horror!

Remir no mundo os escravos
É curar de Cristo as chagas;
Marchai! Que o suor da luta
Vos doure a fronte em bagas.

Quando um dia o sol brasíleo
Surgir, mimoso de amor,
Aquecendo as faces frias
Do escravo ao seu calor.

Estátuas de luz e vida,
Mil renascido à toa,
Tentarão roubar seus raios
Para tecer-vos uma croa!

Ide, librai vossas asas
Da fé no dorso possante!
Acordai Deus, que aniquile
A hidra negra, infamante.


A GUILHOTINA

A guilhotina! E és tu oh! França gloriosa,
Ninho do saber, do bem, da liberdade,
De Mirabeau a pátria nobre e grandiosa
Que guardas em teu seio tamanha iniquidade?!!

Invoquemos de Hugo a alma generosa,
Inundando de amor o peito à mocidade;
E esta, sempre grande, a folha vergonhosa
Ao código francês arranque, por piedade!

A guilhotina! O monstro horripilante!
Dê-se o cárcere, a treva ao infeliz que errou;
Punir assassinando, é vil, é infamante!

E tu, berço de herves, altiva e triunfante,
Não houves aterrada, ao colo que tombou,
No último estertor o grito lancinante?


REFERÊNCIA:

Dados biográficos da poetisa Etelvina Amália de Siqueira.

Dicionário Sergipano de Armindo Guaraná – por Luiz Antônio Barreto.

Etelvina Amália de Siqueira. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Etelvina_Am%C3%A1lia_de_Siqueira>. Acesso em: 18 de ago. de 2015

Etelvina Amália de Siqueira (1862-1935). Disponível em: <http://academialiterariadevida.blogspot.com.br/p/6-etelvina-amalia-de-siqueira.html>. Acesso em: 18 de ago. de 2015

Etelvina Siqueira. Disponível em: <http://bagaceiratalhada.com.br/4-poetisas-sergipanas-e-a-quebra-de-paradigmas-nos-seculos-xix-e-xx/>. Acesso em: 18 de ago. de 2015


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Noite da Poesia Moderna de 1929 em Aracaju / SE

Cinema Guarany

Por: Allan de Oliveira

As tendências modernistas em Sergipe são consideradas uma das mais cultivadas entre os escritores do Estado. Os autores usavam versos livres, sem a preocupação da contagem de sílabas, e do ponto de vista do conteúdo, repetia-se, muitas vezes, a temática de escolas literárias do passado, em particular do Romantismo, considerada outra tendência de grande destaque em terras sergipanas.

Incialmente, os autores sergipanos seguiram as características modernistas da 1ª fase através da quebra de padrões formais em seus poemas com o uso de versos brancos como foi o caso de Abelardo Romero e José Maria Fontes. E nos anos 30, o Romance Social cultivado por Amando Fontes. A partir daí surgiu a crítica social em poemas e contos como, por exemplo, foram as obras de José Sampaio. Poemas Experimentais e Futuristas feitos por Mário Jorge e, posteriormente, até mesmo temáticas voltadas para o Feminismo como foi o caso de Núbia Marques. Mas, esses são exemplos de alguns autores sergipanos de corrente modernista, sendo que houve bem mais autores com essas tendências que já tinham ganhado corpo no Brasil.

O Modernismo em Sergipe teve como precursores Carlos Fontes a partir de 1921, Heribaldo Vieira em 1923, até a chegada de José Maria Fontes e Abelardo Romero em 1924.

O novo movimento se concretizou anos mais tarde em Estância num recital de poemas de 1928. E um ano depois, em 1929 ocorreu em Aracaju um grande evento histórico conhecido como A Noite de Audição de Poesia Moderna que aconteceu no antigo Cinema Guarany, localizado no Centro da cidade. Provavelmente, esse grande acontecimento histórico da capital sergipana foi algo semelhante à Semana de Arte Moderna de 1922, agrupando em um sarau os autores do Estado que recitaram seus poemas e poesias de autores renomados do Brasil. Mas, infelizmente, o presente texto carece de informações por causa da falta de uma bibliografia considerável sobre a literatura sergipana. E se você quem lê saiba de mais alguma informação sobre A Noite de Audição da Poesia Moderna de Aracaju e queira contribuir com mais conteúdo para a ampliação deste texto, é só deixar aqui nos comentários ou enviar um e-mail para allantbo@hotmail.com. Garanto que a sua informação ajudará bastante no crescimento deste modesto blog, bem como contribuirá também para a cultura sergipana.


REFERÊNCIA:

SAMPAIO, José. Poesia e Prosa. Aracaju. Sociedade Editorial de Sergipe, 1992.

CINEMAS DE ARACAJU. Disponível em <http://aracajuantigga.blogspot.com.br/2010/05/cinemas-de-aracaju.html>. Acesso em: 22 de ago. de 2017.


sábado, 1 de outubro de 2016

FATOS DO COTIDIANO NA LITERATURA CRISTÃ DE ANTONIO MENROD



Por: Allan de Oliveira



Recentemente o escritor sergipano Antonio Menrod que mora no Rio de Janeiro lançou duas obras, sendo elas concepções de uma imaginação e lições de missionariedade.

A obra concepções de uma imaginação está composta por duas peças teatrais, “O Novelista” e “Canções de Guerra”, mais a sinopse de uma novela televisiva chamada “Memória da Pele”. O cenário das histórias é o Rio de Janeiro. E esse livro foi premiado no concurso Prêmio Palavrador de Teatro.

A peça que abre o livro concepções de uma imaginação é um monólogo e conta sobre o novelista Abner Gouveia que por vinte anos trabalhou como roteirista colaborador e tem como sonho se tornar um roteirista titular de novelas da TV, e o cenário é a quitinete do próprio personagem com referência a personagens bíblicos (característica do próprio autor).

A história se inicia quando Abner Gouveia retornava do velório do titular de uma novela das 21h “Memória da Pele”, Rodney Câmara, e o primeiro recebe um telefonema com a notícia de que se tornará o titular por causa da morte do outro. O personagem central vê seu sonho se tornando realidade, mas, ele passa a se sentir culpado pela morte de Rodney Câmara por ter recorrido aos rituais de feitiçaria para concretizar o seu sonho. Para tanto, o personagem passa a se lamentar diante do quadro da falecida mãe.

Há toques de humor modernos presentes nessa primeira peça de O Novelista como vemos em seguida:

“ABNER GOUVEIA – (Após soltar a fumaça do charuto pela boca) Mamãe, já sei! É isso que farei para recompensar todo o seu sacrifício de puta, num lupanar de Copacabana, para que eu tivesse a melhor formação acadêmica. (...) É preciso que todos saibam que graças a buceta da minha mãe, eu cheguei ao horário nobre de televisão brasileira como autor titular de uma novela”. (MENROD, p. 29)

E também mais toques de humor são vistos nestes outros trechos:

           “Um bom autor de novela, no mínimo, ele tem que ser mother fucker. E eu sou, literalmente, um filho da puta. (Pausa) Porque não é para qualquer um grudar a bunda. (Pega a cadeira, a traz para o centro do palco e senta) Grudar a bunda mais de quinze horas por dia nesta cadeira e escrever quarenta laudas, todos os dias, quer chova ou faça sol. (...) Haja bunda! A bunda do novelista fica achatada... (...) e ainda por cima ter enorme sucesso de audiência, tem que ser boa “pra caralho”.”. (MENROD, p. 30 e seg.)

Ainda na peça O Novelista são encontradas palavras estrangeiras que dão elegância ao texto como: ma chérie, know-how, mise-em-scène, quelle mervcille, trending topics, s’il vous, high society, Darling... Bem como palavrões em inglês: shit, motherfucker, fucking great. Uma forma técnica de unir o clássico ao moderno.

A próxima peça, Canções de Guerra, se passa no ano de 1981 em fins da Ditadura Militar e conta sobre uma professora de música chamada Clarissa que ao sair do trabalho foi levada por agentes do DOI-CODI (Centro de Operações de Informações do Centro de Defesa Interna) para ser interrogada. O cenário é uma sala de interrogações e Clarissa é interrogada por um tenente-coronel que a interroga por ela ter usado em sala de aula músicas de Chico Buarque e de Caetano Veloso, músicas que foram consideradas em oposição ao Regime Militar, e também por ela ter feito o prefácio de um livro que foi censurado. A professora sofre tortura física e psicológica, e é estuprada, além de outras tragédias que ocorrem ao percurso da história. Um detalhe importante nessa peça é a metáfora que o autor criou com a gatinha da professora chamada Esperança como podemos ver neste trecho abaixo:

“PROFESSORA MAESTRINA CLARISSA – (Com Esperança nos braços) Esperança... Esperança... Não me deixe, não vá embora, Esperança! Ai, meu Deus, minha Esperança está morta. A centelha da minha vida se apagou”. (MENROD, p. 64)

Quanto à sinopse da novela Memória da Pele é contado sobre uma presidiária chamada Ercília Cruz que deu a luz ao filho na penitenciária e por não ter família o bebê ao completar dois anos de idade foi entregue para adoção. A única lembrança que Ercília tem do filho é uma tatuagem dele no braço e ao sair da prisão ela lutará para reencontrar o filho. Ao reencontrá-lo o filho se tornou um ambicioso, metido a Bom Vivant, e Ercília Cruz irá trabalhar na casa dele como doméstica, sem revelar sua identidade, receando ser rejeitada pelo mesmo. Nessa sinopse também é contado sobre a origem da personagem central, nascida em Sergipe, que perdeu a família num acidente de ônibus, passando a morar na rua, as dificuldades que sofreu, morando depois num quartinho com um rapaz lavador de carros até engravidar dele e se envolverem com tráfico de entorpecentes.


Já a obra lições de missionariedade é de autoria de Natham Benson e foi traduzida por Antonio Menrod. Trata-se de um livro com ensinamentos cristãos repleto de passagens bíblicas fundamentadas na doutrina do Catolicismo, comentários do autor abaixo das passagens bíblicas, bem como frases de autores clássicos e filósofos como São Tomás de Aquino, George Sand, Mahatma Gandhi, entre outros.

Para conhecer um pouco mais sobre esse autor acesse a postagem Antonio Menrod: "Um autor do nosso tempo" do presente blog que está neste link http://literaturasergipana.blogspot.com.br/2015/01/antonio-menrod-um-autor-do-nosso-tempo.html e também o blog do próprio autor neste outro link http://oratorioantoniomenrod.blogspot.com.br/.



REFERÊNCIAS:

MENROD, Antônio. Concepções de uma imaginação. Rio de Janeiro. Quártica Editora, 2015.

MENROD, Antônio. Lições de Missionariedade. Rio de Janeiro. Quártica Editora, 2015.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

ARARIPE COUTINHO: “Um escritor polêmico”.

Fonte da foto: http://infonet.com.br/noticias/ler.asp?id=104302&titulo=cultura

Por: Allan de Oliveira
Contato: allantbo@hotmail.com

Araripe Coutinho nasceu no Rio de Janeiro a 13 de dezembro de 1968, sendo filho de Moacir dos Santos e Maria de Nazaré Coutinho. Em 1979, o poeta veio residir em Aracaju, conseguindo o título de cidadania sergipana concebidos pela Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe e Câmara Municipal Clodomir Silva. Estudou o Curso de Letras, mas abandonou e se dedicou ao jornalismo. Foi um dos fundadores do jornal O Capital, juntamente com a jornalista Ilma Fontes, membro da Academia Sergipana de Letras e do Conselho de Cultura Negra de Sergipe.

Araripe Coutinho chegou a conviver com a escritora Hilda Hilst por um bom tempo em São Paulo e escreveu a peça Eu e Ela que fora apresentada no mesmo Estado. Trabalhou em jornais, como diretor da biblioteca pública Clodomir Silva e diretor da Divisão de Memória Cultural da Secretaria de Cultura, apresentador de um programa de TV, além de também ter ministrado oficinas literárias e consultoria para políticos e empresas. Teve colunas no Jornal da Cidade, Gazeta de Sergipe, Correio de Sergipe, e Infonet.

Seu livro Do abismo do tempo foi premiado pela Secretaria de Estado da Cultura com o Prêmio Santo Souza de Poesia em 2007.

No ano de 2011, esse poeta provocou polêmica devido a umas fotos que tirou seminu no Palácio Olímpio Campos, gerando repercussão na internet e também na televisão brasileira.

Sua poesia é lírica com tendência pós-moderna por ser constituída por versos livres numa construção poética variada. Ora é notada sensualidade, ora espiritualismo, ora angústias e lamentos. Viu a beleza que existe em Aracaju em suas crônicas e humanizou a cidade em meio ao caos.

Araripe Coutinho foi considerado um protetor dos jovens e das pessoas excluídas pela sociedade. Ele faleceu no dia 09 de dezembro de 2014, vítima de enfarte em sua residência.


LIVROS PUBLICADOS¹:

* Amor sem Rosto (1989)
* Asas da Agonia (1981)
* Sede no Escuro (1994)
* Passarador (1997)
* Sal das Tempestades (1999)
* O Demônio que é o Amor (2002)
* Como Alguém que Nunca Esteve Aqui (2005)
* Do Abismo do Tempo (2006)
* Nenhum Coração (2008)
* O Sofrimento da Luz (2009)
* Obra Poética Reunida (2010)

II

Vem, chama-me pelo nome.
Mas vem.
Os portões tão altos de um
Ferrugem de amor (já calcinado).
Vejo Deus na folhagem e é o teu rosto
Teu tórax, teu riso
(quase uma hóstia de fogo me queimando).
Estas tardes todas um incêndio
Algo quebrando as cristaleiras.
O vento rindo e pondo poeira
Nas coisas. Estas tardes todas têm
Sido de espera e furto de Deus.
Tento tocar o que não me foi dado.
Chamo Deus. Grito: Acode-me!
Mas é tu que apareces
E a oração é adaga, desventura, morte.

Vem, amor feito de falo
Mudez – vária. Não descobri
Fome. Desse presságio
Desse demônio
Arcano-vário.

Eu rondo o desamparo.
Preparo os tachos
Dentro deles a imerecida carne.

Sendo vosso o amor
Me despedaço.

In: O Demônio que é o amor.


QUERO DIZER QUE APRENDI MORRENDO

Quero dizer que aprendi morrendo
E que o púrpura-jade
Do teu casaco quase
Empenha o meu vazio de afeto.

Recebe de mim
Aquilo que conduz o nada
Conhecida que sou
Em juntar teus trapos

Para só depois sim
Amarrar o cadarço
Da nossa desolação.

In: Do Abismo do Tempo.


ENTREGA-TE COMO QUEM VAI MORRER...

Entrega-te como quem vai morrer.
E não te distanciarás
Do átrio onde um dia
Viveste o teu triunfo.
A tua morte apenas um pretexto
De não amar. Incansável corpo
Que te visita exausto.
Enfrenta o dentro corroído,
O que não deixa. Devora
E vai construindo ilhas
Como quem passeia por uma
Casa de pássaros. Norteia.
E passa como quem não tem
Mais medo. Estertor redobrado
De agonia.

In: Do Abismo do Tempo.


ABSTENHO-ME

Abstenho-me do soco
Mas ele vem, independentemente
Se me toca o rosto.

A fera do mundo
Enjaula a leveza

E o medo.

Enquanto solto o tigre
Devoras-me.
Ardor de infâncias.

Fatal foi não ter nascido
Adulto.

In: Do Abismo do Tempo.


ARCANO UM

O mundo é semi-réptil
Repetitivo e cáustico.
Quando a criança se agacha
Pega deus com os olhos
E chacoalha o seu destino de porco
E deus nem se importa.
A inocência mata.
Herberto Hélder diz
Que é a delicadeza.
Na casa sem portas
Deus está num ardor
Vendo os homens
Incensando o seu poder
De pai.

O mundo é insensato e absurdo.

Arquiteto de tudo Deus inventou o
Homem:

Uma tarântula movida
Pela fome.

In: Do Abismo do Tempo.

________________________________
¹ De acordo com o que foi pesquisado há uma dúvida com relação ao número de livros publicados, totalizando 11 obras. Neste site http://brasil.revistadelosjaivas.com/index.php/81-o-boemio/general/140-araripe-coutinho-retrato-de-um-artista-multiplo é mostrado que Araripe Coutinho publicou 13 obras poéticas. Caso algum leitor do blog tenha a informação verdadeira irá ajudar muito o desenvolvimento deste blog e socialização da informação. Agradecemos se houver alguém disposto a ajudar. (Nota do editor do blog)


REFERÊNCIAS:

Araripe Coutinho. Disponível em: <http://estoudeolhoemtudo.blogspot.com.br/2012/07/araripe-coutinho-nasceu-no-rio-de.html>. Acesso em: 14 de dez. de 2014.

ARARIPE COUTINHO. Disponível em: <http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/sergipe/araripe_coutinho.html>. Acesso em: 05 de jan. de 2015.

Araripe Coutinho lança coletânea na OAB. Disponível em: <http://www.infonet.com.br/cultura/ler.asp?id=96558>. Acesso em: 08 de jan. de 2015.

Araripe Coutinho lança Do Abismo do Tempo na AMA. Disponível em: <http://www.infonet.com.br/Cultura/ler.asp?id=50955&titulo=noticias>. Acesso em: 09 de jan. de 2015.

ARARIPE COUTINHO, RETRATO DE UM ARTISTA MÚLTIPLO. Por Eduardo Waack. Disponível em: <http://brasil.revistadelosjaivas.com/index.php/81-o-boemio/general/140-araripe-coutinho-retrato-de-um-artista-multiplo>. Acesso em: 14 de dez. de 2014.

BRASIL, Assis. A Poesia Sergipana no Século XX. Rio de Janeiro. Imago Editora, 1998.
COUTINHO, Araripe. O demônio que é o amor. Sergipe. Editora Sercore, 2002.

COUTINHO, Araripe. Do abismo do tempo. Sergipe. Editora Sercore, 2006.

domingo, 1 de novembro de 2015

STEPHANE LOUREIRO



Por: Allan de Oliveira.
allantbo@hotmail.com

Stephane Gonçalves Loureiro nasceu em 01 de novembro de 1987 em Aracaju, sendo filha de Maria Lúcia de Souza Gonçalves e Ricardo Loureiro Pereira. Tem como profissões a de advogada, consultora jurídica, e jornalista. Nas horas vagas escreve poemas e prosa. É influenciada pela doutrina espírita e pelo regionalismo. Graduada em Direito pela UNIT (Universidade Tiradentes), contribui como colunista e diretora jurídica no Jornal O Povão (http://www.jornalpovao.com.br/) e também escreve poemas em seu blog: http://spleenbyster.blogspot.com.br.

Recentemente lançou o Romance Dor e Redenção cuja estória está focada no perdão como forma de recomeço para a vida humana. No entanto, o livro mostra, além disso. Trata-se de um Romance Espírita cujo enredo conta a história de um casal de advogados, Luciano e Lígia, e o cenário é o próprio Estado de Sergipe. O advogado morre num acidente automobilístico e a narração, a princípio, não é feita de forma cronológica, mas com o uso frequente de flashs, para depois tomar a forma linear, estando focado na solidariedade cristã da doutrina kardecista, uma temática inovadora para autores sergipanos.

O ambiente descrito é fascinante, de acordo com a crença espírita estando repleto de pessoas vivas (encarnados) e pessoas mortas (desencarnados) com episódios surpreendentes, mesclando o mundo do além com certo romantismo, visando também o labor dedicado por espíritos de luz que procuram ajudar na evolução espiritual de encarnados e desencarnados, bem como a presença de espíritos maléficos que arquitetam maldades a alguns personagens do livro, alimentados por sentimentos de ódio e de vingança, dando certo clima de suspense à estória. E o desenrolar do Romance conduz a uma aventura surpreendente que leva o leitor a um ambiente imaginário.

 “Enquanto falavam, gemidos pavorosos escapavam do túmulo:

- Me tirem daqui, eu não aguento mais, os vermes estão me consumindo, socorro! – gritava o infeliz, desesperado.

Bruno, diante do olhar estupefato que Luciano dirigia à lápide, falou:

- Não sei se você sabe, mas quem comete suicídio, como é o caso deste pobre coitado aqui, o Ciro, muitas vezes passa ainda um bom tempo, preso ao corpo. No momento do ato tresloucado, os laços que o prendiam ao vínculo corpóreo não foram totalmente desligados, já que não era a hora do seu desencarne”. (LOUREIRO, p. 44)

“Impressionante como as pessoas perdem tanto tempo, agastando-se por dinheiro, status, glamour – estas paixões levianas e infrutíferas – se todos nós acabamos do mesmo modo que nascemos para esta vida: despidos e igualados. Meu Deus, somos iguais em tudo! Apenas diferencia-nos, um dos outros, o conhecimento adquirido, os valores morais, inalienáveis, que carregamos para esta nova condição”. (LOUREIRO, p. 47)

“Ambos entraram no recinto fracamente iluminado. Era um grande salão, onde se via fileiras de cadeiras ocupadas tanto por encarnados, quanto desencarnados. Luciano deteve o olhar, justamente nestes últimos, que ocupavam assentos que não eram visíveis pelos presentes ainda cativos no invólucro corpóreo.

Assim, sentaram-se os dois amigos bem próximos à mesa onde se daria a reunião e observaram a tudo, atentos.

Havia diversos espíritos presentes no grande salão, ultrapassando o número de encarnados no recinto. Uns apresentavam carantonhas horrorosas, cheias de sofrimento. Alguns choravam, outros, profundamente desequilibrados, ainda gritavam de quando em vez, impropérios desesperados – ao que eram prontamente acalmados pelos colaboradores do local”. (LOUREIRO, p. 53)

“- Eu procurei, por meio de diversas contrariedades e decepções, enfraquecê-lo fisicamente e emocionalmente. O que não foi difícil, porque ele, de qualquer modo, levava uma vida de desregramentos físicos e morais. Nunca dera grande importância à saúde. Aos poucos e continuamente, minei suas defesas psicológicas, assoberbando-o de contrariedades diversas. Passei a assumir o controle da sua vida, por assim dizer, concorrendo para todos os seus objetivos fracassassem. Então, a amargura do dia-a-dia, o desgaste físico dos seus excessos de álcool e fumo e o meu constante e sutil assédio deletério, influenciando-o psiquicamente, enfraqueceram seu organismo de tal modo, e em específico o sistema cardiovascular, ao ponto de provocar em Dietrich um infarto fulminante, o que o fez desencarnar prematuramente! Ele permanecera ainda por longo período preso ao corpo físico, acompanhando sua decomposição”. (LOUREIRO, p. 174 e seg.)

Além disso, no livro também está contida certa denúncia referente ao preconceito em relação às diferenças sociais, buscando mostrar a luta do bem contra o mal. E a autora mesma revela:

“Nunca pretendi que as minhas palavras fossem verdades absolutas em nada. Todavia, tenho desejado ardentemente, em cada um dos meus dias, que as minhas palavras falem a minha verdade e que ela seja de algum modo ouvida e toque o coração das pessoas. E que essa verdade singela, transmita a delicada mensagem do amor, da esperança, da fé no futuro e, sobretudo, do perdão”. (Nota da autora)

Em o jornal O Povão Nº 652 de julho de 2015, a autora diz:

“Quando escrevi “Dor e Redenção”, em meados do ano de 2010, minha primeira empreitada séria no mundo da prosa literária – ainda que, desde muito jovem, tenha me dedicado com afinco ao universo da poesia – procurei aproximar a ficção politicamente incorreta, do sério dilema multimilenar enfrentado pelo ser humano de todos os séculos: o grave desafio do perdão libertador – aquele que alija o espírito sobrecarregado do peso inútil da amargura. O único remédio capaz de liberar o homem para o recomeço e a verdadeira reforma íntima.
De modo que, a publicação deste Romance representa a concretização da minha missão pessoal de fazer das palavras instrumento de auxílio ao próximo e do desejo de quem dedicou-se uma vida inteira ao ofício das palavras, nessa dura saga de colocar os sentimentos no papel (de uma forma ou de outra).
Ainda que não se trate de uma obra autobiográfica – afinal, romance é necessariamente ficção – e sem qualquer intenção de que as ideias delineadas no livro sejam fieis reproduções de qualquer conceito filosófico ou religioso, tenho certeza de que não há como não identificar-se com o drama dos personagens centrais. Afinal, o perdão é universal”.

Quanto aos seus poemas, a autora afirma ter sido influenciada na juventude pela poetisa da Amazônia, Violeta Branca. Começando a escrever poemas aos 11 anos.

O ANIMAL

Com o tempo, o coração se acostuma.
Sobram teorias, lembranças, vestígios.
A velha música exaustivamente repetida,
Deixa de fazer tanto sentido.

O peito não dispara quando toca o telefone
A memória do rosto se desfaz aos poucos.
Esquecem-se promessas.

O cheiro não resiste mais, insolente, na pele.
A cama, desfeita, deixa de ser apenas um lugar vazio.
Lágrimas, de quando em vez, escorrem, sem desespero.

Sem razão, passa-se a olhar em volta.
Outros sorrisos preenchem todos os espaços.
Outros corpos pesam sobre o meu.
Outras carícias despertam o animal.

Repentinamente, desejos são satisfeitos.
Álcool, calor e barulho.
Desvairos alheios e encantadoras incertezas.

Loucura, seduzir convém.
Vazio, esquecer convém.

Olhos fechados.
Silêncio por dentro de tudo.
Não é preciso pensar.

POEMA XXI

Preciso esquecer-me de mim.
Preciso ausentar-me deste peito devastado.
Ando demasiadamente cansado.
Onde, Deus, estará o alento?
É-me possível vencer a dor e camuflar
Esta cicatriz sanguinolenta?

Sim, preciso ser um pouco menos egoísta.
Quem sou para queixar-me de minhas dores
Se tantos outros infelizes do mundo
Ocultam suas feridas e choram copiosamente
Calados?

Deus, arranca-me das garras do egoísmo!
Esta chaga horrenda ostentada pela humanidade,
Mouca encegueirada,
Quando tantas mães anônimas, desesperançadas,
Ouvem impotentes os gritos incontidos de seus famintos infantes!

Devo vestir minha armadura
Empunhar a espada da coragem
E extirpar o desalento
Do seio do mundo.

O único modo de aplacar a dor
Dos sonhos perdidos
É amando aqueles a que Deus
Concedeu provas bem maiores.

É preciso amparar os desgraçados do mundo!
Eis o único modo de obter a felicidade.

Preciso fechar os olhos às minhas amarguras.
Há outros que precisam muito mais que eu
De piedade.

Ster Loureiro
(20/10/08)


OBRA:

Dor e Redenção (2015)


REFERÊNCIAS:

LOUREIRO, Stephane. Dor e Redenção. Aracaju, Infographics, 2015.

http://spleenbyster.blogspot.com.br/. Acesso em: 26 de ago. de 2015.


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