sexta-feira, 3 de novembro de 2017

ALINA PAIM: “Uma autora esquecida por causa do seu marxismo”




Por: Allan de Oliveira.
Contato: allantbo@hotmail.com

Alina Leite Paim foi professora, escritora, comunista e feminista. Nasceu em Estância a 10 de outubro de 1919. Sendo filha de Manuel Vieira Leite e de Dona Maria Portela de Andrade Leite. Aos 3 meses de idade, mudou-se com a família para Salvador. Perdeu a mãe aos cinco anos, vítima de tuberculose, e Alina Paim retornou a Sergipe com o pai, indo morar na casa dos avós paternos em Simão Dias que lhe deram uma educação muito rigorosa. Estudou o Ensino Fundamental I na Escola Menino Jesus e, posteriormente, no Grupo Escolar Fausto Cardoso onde recebeu formação religiosa. No ano de 1932, ela retornou a Salvador, estudando no colégio de freiras Nossa Senhora da Soledade. É quando ela começa a escrever seus primeiros textos aos 12 anos no jornal desse colégio até se formar como professora.

Alina Paim leciona em Salvador numa escola pública da periferia, convivendo com a miséria das crianças e com as dificuldades da educação brasileira na década 30. Ela passa por problemas pessoais por causa de conflitos familiares, entrando num quadro de profundo stress, sendo internada em um sanatório, onde permaneceu por três meses. E recebendo os cuidados do psiquiatra Isaías Paim, com quem chegou a se casar em 1943, morando com ele no Rio de Janeiro nos anos 40. Época que fez amizade com Graciliano Ramos que corrigiu os seus três primeiros Romances.

Publicou o seu primeiro Romance Estrada da Liberdade em 1944, que teve grande repercussão e a primeira edição se esgotou rapidamente, num período de quatro meses.

A autora escreveu também um programa infantil chamado “No Reino da Alegria” para a rádio do Ministério da Educação e Cultura. Fundou a revista Tempo, em 1948. Chegando a ser incluída no grupo de escritoras da “Nova Literatura Brasileira” ao lado de Helena Silveira, Lúcia Benedetti, Elsie Lessa, Lia Correia Dutra, Elisa Lispector, Ondina Ferreira, entre outras. E em 1961, recebeu o Prêmio “Antônio de Almeida” da Academia Brasileira de Letras por causa do seu romance O Sol do Meio-Dia.

Em sua literatura estão presentes os interesses humanos de sentido político e social, sendo abordadas temáticas diversas que dão prioridade às personagens que buscam respeito e participação na produção cultural, mostrando a problemática da mulher em diferentes situações, e defendendo os ideais do Feminismo. Como também a ideologia Comunista presente nas suas obras com o intuito de ser defendida a igualdade para todos e ser denunciado as mazelas sociais.

“Alina é uma romancista que escreve com naturalidade, conta a sua história com um gosto e emoção crescente, conseguindo captar o que há de duradouro e de eteno na criatura humana. Denunciando a história de várias criaturas, cujos pequenos dramas ganham enormes proporções, porque exprimem toda espécie de mutilação de uma sociedade rural, como no romance Simão Dias”. (A ROMANCISTA ALINA PAIM – Por Gilfrancisco)

A escritora fez parte do Partido Comunista Brasileiro (PCB), chegando a entrevistar grevistas que participaram do movimento ferroviário do Vale do Paraíba em 1949, através de uma viagem paga pelo próprio partido. Viajando também para a Rússia em 1950 para representar o seu partido em Moscou nas festividades do 1º de Maio, o Dia do Trabalhador¹. Mas, nessa outra viagem ela foi ajudada financeiramente pelo artista plástico Cândido Portinari.

Durante a Ditadura Militar foi perseguida por ter sido integrante do PCB e por causa da sua militância feminista. É também nesse período que ela traduziu textos marxistas de Lenin e colaborou em jornais de Sergipe, da Bahia, e do Rio de Janeiro.

A autora escreveu 10 Romances, e 4 infantis, e alguns deles foram editados na Rússia, China, Bulgária, e Alemanha. E além de sua obra ter recebido crítica favorável que coloca a autora entre as melhores romancistas nacionais e internacionais da sua geração. Infelizmente, ela ficou pouco conhecida no Brasil, tanto nos meios acadêmicos quanto no público em geral. E como consta no artigo científico Alina Paim, uma romancista esquecida nos labirintos do tempo escrito por Ana Maria Leal Cardoso: “O motivo não se sabe ao certo; talvez pelo fato de ela ser comunista e suas obras estarem repletas de denso teor socialista (naquela época, um compromisso com o PCB) que reivindica direitos iguais para todos, o que não agradava nem ao governo e nem aos empresários do mundo editorial e artístico”.

ROMANCES

A Estrada da Liberdade (1944).
Simão Dias [com prefácio de Graciliano Ramos] (1949)
A sombra do patriarca (1950).
A hora próxima (1955).
Sol do meio-dia (1961).
O círculo (1965).
O sino e a rosa (1965).
A chave do mundo (1965).
A Sétima Vez (1975)
A correnteza (1979).
A sétima vez (1994).

OBRAS INFANTIS

O lenço encantado (1962)
A casa da coruja verde (1962)
Luzbela vestida de cigana (1963)
Flocos de algodão (1966)
O chapéu do professor (1966).


REFERÊNCIA:

ALINA PAIM. In: Wikipédia – A Enciclopédia Livre. Disponível em: <https://es.wikipedia.org/wiki/Alina_Paim>. Acesso 04 de set. de 2017

ALINA Paim. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa519577/alina-paim>. Acesso em: 05 de Set. 2017. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7

Alina Paim, uma romancista esquecida nos labirintos do tempo – artigo científico escrito por Ana Maria Leal Cardoso. Disponível em: <http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/aletria/article/view/1535/1631>. Acesso em 04 de set. de 2017

A ROMANCISTA ALINA PAIM – Por Gilfrancisco. In: O arquivo de Renato Suttana. Disponível em: <http://www.arquivors.com/gilfrancisco7.htm>. Acesso em 05 de set. de 2017.

Sergipana, escritora, comunista e silenciada. In: Destaque Comunicação. Disponível em: <https://www.destaquenoticias.com.br/sergipana-escritora-comunista-e-silenciada/>. Acesso em: 04 de set. de 2017


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¹ O 1º de Maio sempre foi considerado o “Dia do Trabalhador” desde a sua criação em 1888 e não “Dia do Trabalho” como mudaram nos calendários de uns anos para cá. (Nota do administrador deste blog)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

ETELVINA SIQUEIRA: “A mãe da intelectualidade feminina de Sergipe”.


Por: Allan de Oliveira.
Contato: allantbo@hotmail.com

A poetisa, contista, jornalista, e oradora Etelvina Amália de Siqueira, considerada a pioneira da intelectualidade feminina em Sergipe, nasceu no município de Itabaiana em 5 de novembro de 1872, sendo filha do escrivão José Jorge de Siqueira e de Dona Rosa Maria de Siqueira. Cursou o primário em Itabaiana e anos depois se mudou com a família para Aracaju.

Na capital sergipana, foi aprovada num exame de seleção, ingressando na Escola Normal do Asilo Nossa Senhora da Pureza, destacando-se por sua inteligência e dedicação aos estudos, e se tornando professora em 1884. Fundando depois o seu próprio colégio particular de ensino primário e secundário no período de 1885 a 1890, e trabalhou também na Escola Normal como professora e Auxiliar do diretor dessa instituição.

Etelvina Siqueira escreveu discursos e artigos em diversos jornais sergipanos como “O Libertador”, “O Planeta”, “Gazeta de Sergipe” e o “Estado de Sergipe”, bem como no jornal rio-grandense “A Discussão”.

Foi uma mulher que lutou pelo fim da escravidão no Brasil, chegando a dar aulas gratuitas para os filhos libertos das escravas na casa do seu tio Francisco José Alves. Sendo participante da campanha abolicionista na Sociedade Libertadora Sergipana. Lutando também em prol da educação e da literatura sergipana, tendo grande importância como grande oradora brasileira e autora de vários hinos escolares.

A autora escreveu sonetos e poemas em redondilhas maiores e menores. Neles são tratadas temáticas sobre nostalgia, abolicionismo, exaltação a personalidades do seu tempo e à natureza, defesa da educação e dos direitos das mulheres do século XIX.

De acordo com o Dicionário Biobibliográfico Sergipano de Armindo Guaraná, Etelvina Siqueira escreveu:
– Discurso proferido na “Cabana de Pai Thomaz” no dia 2 de dezembro de 1883. No “O Libertador” e no “O Planeta”, do Aracaju de 8 do mesmo mês.
– A escravidão e a mulher. Na “Gazeta do Aracaju”, de 15 de dezembro do mesmo ano. Transcrito na “A Discussão” de Pelotas, Rio Grande do Sul, de 17 de julho de 1884.
– Pequenos voos: contos. Aracaju, 1890, 39 págs. in. 8º pg. Tip. da “Gazeta do Aracaju”.
– Discurso pronunciado a 15 de agosto de 1911 no ato da inauguração do edifício destinado para a Escola Normal e Escolas Anexas. No “O Estado de Sergipe” de 17 do mesmo mês.
– Discurso pronunciado a 15 de agosto de 1911 por ocasião de ser colocado no salão nobre da Escola Modelo e Anexas do Aracaju o retrato do Exmo. Presidente do Estado, Dr. José Rodrigues da Costa Dória. No referido jornal de 17 do mesmo mês.

Etelvina Siqueira faleceu em Aracaju em 10 de março de 1935, solteira e na pobreza.


ALGUNS POEMAS:

MINHA TERRA

Minha terra é uma criança
Sempre risonha, não chora,
Encantada das belezas
Com que a natureza a aflora.

Uma fada, um anjo, uma musa
Não sei o que diga dela
A magnólia que enfeita
As tranças de uma donzela!

É o segredo que expira
Nos lábios do vendaval;
É a estrela vespertina,
Tem encantos sem igual.

É o bogarim que balouça
Tremendo fresco no hastil;
É a campesina faceira,
Garbosa, bela e gentil!

É o rouxinol a encantar-nos
Quando a tardinha o convida;
Foi lá que eu senti prazeres,
Que vivi, meu Deus! Que vida!

                  II

À sombra dos adustos cajueiros
Aspirando o perfume de seu seio,
Eu gozei dos anjos a harmonia,
As aventuras do céu, que doce enleio!

Saltitando em seus campos de boninas,
Lá na infância que fugiu e não vem mais,
Eu era como as rosas matutinas,
Orvalhavam-me os beijos dos meus pais.

Abraçada à cintura da irmãzinha,
Que brincava como eu, forte e ligeira,
Íamos juntas, nas asas da alegria
As flores raptar da laranjeira.

Tínhamos flores, cantos e perfumes,
Pássaros, borboletas, mil brinquedos,
Improvisávamos lindas barraquinhas,
À sombra dos frondosos arvoredos.

Quando o sino plangente da matriz
Convidava os fieis à devoção,
Minha mãe, esse arcanjo de doçura,
Nos levava contente pra oração.

Minha terra é bonita mais que as outras,
É vaidosa princesa do sertão,
Tem seu leito num campo de verdura,
E por leque a mais pura viração.

Os raios do sol diamantino
Brilham mais que os aljôfares do Ceilão,
Do seu luar, na palidez que mata,
Se resume de Deus a criação.

                  III

Tem uma serra orgulhosa
Invejada no Brasil
Ribeirinhos cor de prata
E um céu de puro anil.

Quando a tempestade surge,
Ao ribombar do trovão
Não lhe míngua o encantamento
Há mais fé no coração.

Não tendo flores viçosas
Que te lance ao lindo colo,
Aceita, mãe, a saudade
Que colhi em estranho solo.

Recebe a prova singela
Que te manda a filha ausente.
Reparai – vai orvalhada
De um pranto ainda quente.


SONETO

Rompia a aurora louçã, perfumosa,
Seus gratos odores deixando no prado,
Tremiam ainda no céu estrelado
Carimbos luzentes. Que cena formosa!

Cantando travessa, gentil e garbosa,
Descalça, risonha, cabelo adornado
De flores silvestres, andar requebrado,
Sorvendo perfumes na boca mimosa.

A filha das serras, a virgem selvagem
Passava, de rosas arfando-lhe o seio,
Os bastos cabelos brincando co’a aragem.

Feliz, descuidosa, sem dor, sem receio,
E a brisa fagueira, na mansa passagem,
A face morena beijava-lhe em cheio.


A FAUSTO CARDOSO
(Recitada ao pé do seu túmulo, no dia 28 de agosto de 1907)

Silêncio, dizem-no ouvir, nota por nota,
O soluçar do povo sergipano!
Mais esta prova de amor e de saudade
Àquela alma valente de espartano!

Águia, no seu giro altivolente,
Correu em busca deste ninho amado;
De altivos ideais embevecido,
Vinha bater os erros do passado.

Nada de ódios; no seu peito nobre
Não se abrigava um sentimento vil,
Fascinava-o a glória de Sergipe,
Esta nesga inditosa do Brasil!

Como o loiro profeta da Judeia,
Teve a cruz e o suplício do Calvário,
Lenho sagrado – a Pátria estremecida,
O Horto – a carabina de um sicário.

Que nênias tristes, que saudade funda,
Deixaste n’alma de Sergipe inteiro!
Mas o teu sangue nos remiu, herói,
Da liberdade ardente pregoeiro!

Adeus, adeus, oh! Fausto, aí te ficam
Todas as flores de minha alma pura!
Que os prantos de Sergipe, agradecido
Te orvalhem sempre, sempre a sepultura.


AO “AMIGO DO ESCRAVO”

Marchai, oh! Astro de glória!
O mundo é vosso, correi!
O empenho é árduo, terrível,
Embora – lutai e vencei!

Mocidade, escuta o eco
Da antiga Jerusalém,
Soltado, a morrer de amores
Por Deus, o supremo Bem!

Quem no berço, inda oscilante,
Vos daria tanta luz
Senão a harmonia maga
Dos gemidos de Jesus?

Quase exangue, saturada
Da torpeza, a vil Judeia
Viu expirar em seu seio
A redentora epopeia!

Infeliz! Cega e perdida,
Não via que o crime atroz
Velava-lhe a negra fronte
Em denso crepe, veloz!

Não via que a humanidade
Herdara do seu Jesus
As bagas quentes do pranto,
Dos olhos a meiga luz!

Cativo um povo, gemendo
Da vergasta o açoite vil,
Estende os braços convulsos
Vertendo prantos a mil...

Vós despertastes ao grito
Da infeliz escravidão;
Somos amigos, dissestes,
Dos míseros que não têm pão.

Quanta doçura, Deus grande,
Quanta fé e quanto amor,
Nesta esperança que brilha
Do cativeiro no horror!

Remir no mundo os escravos
É curar de Cristo as chagas;
Marchai! Que o suor da luta
Vos doure a fronte em bagas.

Quando um dia o sol brasíleo
Surgir, mimoso de amor,
Aquecendo as faces frias
Do escravo ao seu calor.

Estátuas de luz e vida,
Mil renascido à toa,
Tentarão roubar seus raios
Para tecer-vos uma croa!

Ide, librai vossas asas
Da fé no dorso possante!
Acordai Deus, que aniquile
A hidra negra, infamante.


A GUILHOTINA

A guilhotina! E és tu oh! França gloriosa,
Ninho do saber, do bem, da liberdade,
De Mirabeau a pátria nobre e grandiosa
Que guardas em teu seio tamanha iniquidade?!!

Invoquemos de Hugo a alma generosa,
Inundando de amor o peito à mocidade;
E esta, sempre grande, a folha vergonhosa
Ao código francês arranque, por piedade!

A guilhotina! O monstro horripilante!
Dê-se o cárcere, a treva ao infeliz que errou;
Punir assassinando, é vil, é infamante!

E tu, berço de herves, altiva e triunfante,
Não houves aterrada, ao colo que tombou,
No último estertor o grito lancinante?


REFERÊNCIA:

Dados biográficos da poetisa Etelvina Amália de Siqueira.

Dicionário Sergipano de Armindo Guaraná – por Luiz Antônio Barreto.

Etelvina Amália de Siqueira. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Etelvina_Am%C3%A1lia_de_Siqueira>. Acesso em: 18 de ago. de 2015

Etelvina Amália de Siqueira (1862-1935). Disponível em: <http://academialiterariadevida.blogspot.com.br/p/6-etelvina-amalia-de-siqueira.html>. Acesso em: 18 de ago. de 2015

Etelvina Siqueira. Disponível em: <http://bagaceiratalhada.com.br/4-poetisas-sergipanas-e-a-quebra-de-paradigmas-nos-seculos-xix-e-xx/>. Acesso em: 18 de ago. de 2015


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Noite da Poesia Moderna de 1929 em Aracaju / SE

Cinema Guarany

Por: Allan de Oliveira

As tendências modernistas em Sergipe são consideradas uma das mais cultivadas entre os escritores do Estado. Os autores usavam versos livres, sem a preocupação da contagem de sílabas, e do ponto de vista do conteúdo, repetia-se, muitas vezes, a temática de escolas literárias do passado, em particular do Romantismo, considerada outra tendência de grande destaque em terras sergipanas.

Incialmente, os autores sergipanos seguiram as características modernistas da 1ª fase através da quebra de padrões formais em seus poemas com o uso de versos brancos como foi o caso de Abelardo Romero e José Maria Fontes. E nos anos 30, o Romance Social cultivado por Amando Fontes. A partir daí surgiu a crítica social em poemas e contos como, por exemplo, foram as obras de José Sampaio. Poemas Experimentais e Futuristas feitos por Mário Jorge e, posteriormente, até mesmo temáticas voltadas para o Feminismo como foi o caso de Núbia Marques. Mas, esses são exemplos de alguns autores sergipanos de corrente modernista, sendo que houve bem mais autores com essas tendências que já tinham ganhado corpo no Brasil.

O Modernismo em Sergipe teve como precursores Carlos Fontes a partir de 1921, Heribaldo Vieira em 1923, até a chegada de José Maria Fontes e Abelardo Romero em 1924.

O novo movimento se concretizou anos mais tarde em Estância num recital de poemas de 1928. E um ano depois, em 1929 ocorreu em Aracaju um grande evento histórico conhecido como A Noite de Audição de Poesia Moderna que aconteceu no antigo Cinema Guarany, localizado no Centro da cidade. Provavelmente, esse grande acontecimento histórico da capital sergipana foi algo semelhante à Semana de Arte Moderna de 1922, agrupando em um sarau os autores do Estado que recitaram seus poemas e poesias de autores renomados do Brasil. Mas, infelizmente, o presente texto carece de informações por causa da falta de uma bibliografia considerável sobre a literatura sergipana. E se você quem lê saiba de mais alguma informação sobre A Noite de Audição da Poesia Moderna de Aracaju e queira contribuir com mais conteúdo para a ampliação deste texto, é só deixar aqui nos comentários ou enviar um e-mail para allantbo@hotmail.com. Garanto que a sua informação ajudará bastante no crescimento deste modesto blog, bem como contribuirá também para a cultura sergipana.


REFERÊNCIA:

SAMPAIO, José. Poesia e Prosa. Aracaju. Sociedade Editorial de Sergipe, 1992.

CINEMAS DE ARACAJU. Disponível em <http://aracajuantigga.blogspot.com.br/2010/05/cinemas-de-aracaju.html>. Acesso em: 22 de ago. de 2017.


sábado, 1 de outubro de 2016

FATOS DO COTIDIANO NA LITERATURA CRISTÃ DE ANTONIO MENROD



Por: Allan de Oliveira



Recentemente o escritor sergipano Antonio Menrod que mora no Rio de Janeiro lançou duas obras, sendo elas concepções de uma imaginação e lições de missionariedade.

A obra concepções de uma imaginação está composta por duas peças teatrais, “O Novelista” e “Canções de Guerra”, mais a sinopse de uma novela televisiva chamada “Memória da Pele”. O cenário das histórias é o Rio de Janeiro. E esse livro foi premiado no concurso Prêmio Palavrador de Teatro.

A peça que abre o livro concepções de uma imaginação é um monólogo e conta sobre o novelista Abner Gouveia que por vinte anos trabalhou como roteirista colaborador e tem como sonho se tornar um roteirista titular de novelas da TV, e o cenário é a quitinete do próprio personagem com referência a personagens bíblicos (característica do próprio autor).

A história se inicia quando Abner Gouveia retornava do velório do titular de uma novela das 21h “Memória da Pele”, Rodney Câmara, e o primeiro recebe um telefonema com a notícia de que se tornará o titular por causa da morte do outro. O personagem central vê seu sonho se tornando realidade, mas, ele passa a se sentir culpado pela morte de Rodney Câmara por ter recorrido aos rituais de feitiçaria para concretizar o seu sonho. Para tanto, o personagem passa a se lamentar diante do quadro da falecida mãe.

Há toques de humor modernos presentes nessa primeira peça de O Novelista como vemos em seguida:

“ABNER GOUVEIA – (Após soltar a fumaça do charuto pela boca) Mamãe, já sei! É isso que farei para recompensar todo o seu sacrifício de puta, num lupanar de Copacabana, para que eu tivesse a melhor formação acadêmica. (...) É preciso que todos saibam que graças a buceta da minha mãe, eu cheguei ao horário nobre de televisão brasileira como autor titular de uma novela”. (MENROD, p. 29)

E também mais toques de humor são vistos nestes outros trechos:

           “Um bom autor de novela, no mínimo, ele tem que ser mother fucker. E eu sou, literalmente, um filho da puta. (Pausa) Porque não é para qualquer um grudar a bunda. (Pega a cadeira, a traz para o centro do palco e senta) Grudar a bunda mais de quinze horas por dia nesta cadeira e escrever quarenta laudas, todos os dias, quer chova ou faça sol. (...) Haja bunda! A bunda do novelista fica achatada... (...) e ainda por cima ter enorme sucesso de audiência, tem que ser boa “pra caralho”.”. (MENROD, p. 30 e seg.)

Ainda na peça O Novelista são encontradas palavras estrangeiras que dão elegância ao texto como: ma chérie, know-how, mise-em-scène, quelle mervcille, trending topics, s’il vous, high society, Darling... Bem como palavrões em inglês: shit, motherfucker, fucking great. Uma forma técnica de unir o clássico ao moderno.

A próxima peça, Canções de Guerra, se passa no ano de 1981 em fins da Ditadura Militar e conta sobre uma professora de música chamada Clarissa que ao sair do trabalho foi levada por agentes do DOI-CODI (Centro de Operações de Informações do Centro de Defesa Interna) para ser interrogada. O cenário é uma sala de interrogações e Clarissa é interrogada por um tenente-coronel que a interroga por ela ter usado em sala de aula músicas de Chico Buarque e de Caetano Veloso, músicas que foram consideradas em oposição ao Regime Militar, e também por ela ter feito o prefácio de um livro que foi censurado. A professora sofre tortura física e psicológica, e é estuprada, além de outras tragédias que ocorrem ao percurso da história. Um detalhe importante nessa peça é a metáfora que o autor criou com a gatinha da professora chamada Esperança como podemos ver neste trecho abaixo:

“PROFESSORA MAESTRINA CLARISSA – (Com Esperança nos braços) Esperança... Esperança... Não me deixe, não vá embora, Esperança! Ai, meu Deus, minha Esperança está morta. A centelha da minha vida se apagou”. (MENROD, p. 64)

Quanto à sinopse da novela Memória da Pele é contado sobre uma presidiária chamada Ercília Cruz que deu a luz ao filho na penitenciária e por não ter família o bebê ao completar dois anos de idade foi entregue para adoção. A única lembrança que Ercília tem do filho é uma tatuagem dele no braço e ao sair da prisão ela lutará para reencontrar o filho. Ao reencontrá-lo o filho se tornou um ambicioso, metido a Bom Vivant, e Ercília Cruz irá trabalhar na casa dele como doméstica, sem revelar sua identidade, receando ser rejeitada pelo mesmo. Nessa sinopse também é contado sobre a origem da personagem central, nascida em Sergipe, que perdeu a família num acidente de ônibus, passando a morar na rua, as dificuldades que sofreu, morando depois num quartinho com um rapaz lavador de carros até engravidar dele e se envolverem com tráfico de entorpecentes.


Já a obra lições de missionariedade é de autoria de Natham Benson e foi traduzida por Antonio Menrod. Trata-se de um livro com ensinamentos cristãos repleto de passagens bíblicas fundamentadas na doutrina do Catolicismo, comentários do autor abaixo das passagens bíblicas, bem como frases de autores clássicos e filósofos como São Tomás de Aquino, George Sand, Mahatma Gandhi, entre outros.

Para conhecer um pouco mais sobre esse autor acesse a postagem Antonio Menrod: "Um autor do nosso tempo" do presente blog que está neste link http://literaturasergipana.blogspot.com.br/2015/01/antonio-menrod-um-autor-do-nosso-tempo.html e também o blog do próprio autor neste outro link http://oratorioantoniomenrod.blogspot.com.br/.



REFERÊNCIAS:

MENROD, Antônio. Concepções de uma imaginação. Rio de Janeiro. Quártica Editora, 2015.

MENROD, Antônio. Lições de Missionariedade. Rio de Janeiro. Quártica Editora, 2015.

ALINA PAIM: “Uma autora esquecida por causa do seu marxismo”

(Fonte da foto: https://www.destaquenoticias.com.br/sergipana-escritora-comunista-e-silenciada/ ) Por: Allan de Oliveira. Conta...