quinta-feira, 1 de agosto de 2013

HERMES FONTES: “A genialidade em pessoa”

Por: Allan de Oliveira.
Contato: allantbo@hotmail.com




Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes nasceu no município de Boquim (SE) a 28 de agosto de 1888, sendo filho de camponeses pobres. Com a idade de cinco anos perdera a mãe, fato esse que causou forte influência em alguns dos poemas do nobre poeta. Seus estudos começaram em Boquim e depois em Aracaju. Nesse tempo em que ele estivera em Aracaju, por sorte, o governador da província, Dr. Martinho Garcez, percebera a genialidade do garoto e resolvera financiar seus estudos no Rio de Janeiro quando se mudou para lá, levando o rapaz consigo no ano de 1898. Posteriormente, em 1908, Hermes Fontes fizera um concurso dos Correios e se classificou em 1º lugar. A partir daí, ele resolveu seguir o seu caminho e se “virar sozinho”, indo morar num pensionato. É nesse momento também que ele passou a estudar na Faculdade Nacional de Direito (UFRJ), época que conheceu grandes ícones da literatura brasileira.

“A publicação de suas primeiras obras trouxeram-lhe imediata consagração e Hermes Fontes transforma-se em celebridade nacional. O seu prestígio percorre o país de norte a sul. Em 1917, um grupo de intelectuais pernambucanos convida-o a visitar Recife, onde é recebido como gênio poético da nova geração. É homenageado também em Minas Gerais. Apesar do reconhecimento nacional, era um homem infeliz, introvertido e de trato difícil”. (ALMEIDA, p. 10)

A sua obra contém influências parnasianas, simbolistas e modernistas, e seu grande livro é considerado Apoteoses (1908), obra que causou grande repercussão, sendo considerada uma das mais importantes da literatura brasileira.

Quanto a vida amorosa de Hermes Fontes, pelo que se sabe é que ele não teve muita sorte por ter sido rejeitado pelas mulheres por conta da sua aparência raquítica, sofrer gagueira e surdez, e ter a cabeça avantajada. Porém, esse gênio sergipano acabou se casando com uma das filhas da proprietária da pensão em que morava, e a mulher que se tornou a sua esposa chegou a ficar grávida, mas a criança não nasceu.

Anos depois Hermes Fontes descobrira que a esposa o traíra. Esse problema se unira a outros que surgiram pela frente acarretando no suicídio de Hermes Fontes em 26 de dezembro de 1930 com um tiro na cabeça.


Bibliografia do autor¹:

* Apoteoses (1908)

* Gênese (1913)

* Ciclo da Perfeição (1914)

* Mundo em Chamas (1914) [Didático]

* Miragem do Deserto (1917)

* Microcosmo (1919)

* A Lâmpada Velada (1922)

* A Fonte da Mata... (1930).


EXORTAÇÃO (Apoteose da Luz)

Luz, espelho do Gênio e altar das maravilhas!
Espírito dos céus, -que jamais, luz, se esgote
A harmonia estelar cujas cordas dedilhas,
Luz, poetisa do Azul, de que sou sacerdote!

Numa constelação ou num trêmulo archote,
És sempre a luz e, luz eternamente brilhas...
De estrelas brota o céu, se lhe ordenas que brote
E abrem-se em rios de ouro as tuas áureas trilhas.

Não vibrasse o clarim solar, cantando o Dia,
O plaustro não rodasse em que passeia a Aurora,
E céu e terra, tudo ao nada voltaria!

Não existisses tu, nada existiria agora:
Nem, no vale, uma flor efêmera haveria,
Nem, no ar, um desses sois em cuja alma Deus mora...

EXORTAÇÃO (Lendas)

A Vida, só por si, a Vida-humana,
É uma apoteose a tudo o que contém:
Injustiça sistemática – ela irmana
O Pecado e a Virtude, o Mal e o Bem.

Nela, o Futuro é um arrebol que engana,
Porque, se mais atrai, mais fica além...
O Presente é esta luta – luta insana! –
E o Passado, o que foi... nunca mais vem.

E assim vais, Vida-humana, de onda em onda,
- amplo Oceano que escondes e desvendas
As misérias que à própria face expões...

E na foz do Porvir – que ninguém sonda –
Que são os rios do Passado? – Lendas...
E os do Presente, que é que são? Visões...

FALANDO À MINHA SOMBRA

Desses que andam a rir no carnaval da vida,
Talvez sejamos nós a Apatia e o Despeito:
A menos que teu mal com meus males coincida,
Intriga-me ser eu sujeito ao que és sujeito.

E, se temos à boca um riso contrafeito,
Temos a alma a sangrar numa grande ferida...
E irmãos em tudo, irmãos, defeito por defeito,
Crês, se creio, e descrês, se creio a fé perdida.

Nessa douda Babel de máscaras, a graça
É que, burlando a ação interna da Descrença,
Iludimos, cantando, a multidão que passa...

Entretanto, o coração no incêndio se condensa...
E abafamos-lhe o pranto, as chamas e a fumaça,
Sob a máscara fria e usual da indiferença...

VISÃO PESSIMISTA

Às vezes, volto o olhar aos íntimos vexames
E o distendo, depois, pela Existência inteira:
São tantos os sandeus, são tantos os infames,
Que a Dúvida se faz, quer queira, quer não queira.

Outras vezes, me diz a Fé, alvissareira,
Da Esperança atraindo os prófugos enxames:
- para teres da Paz o ramo de oliveira,
A virtude e a Razão exigem que não ames...

Mas renego a Razão e a Virtude renego:
Falte o Amor, faltarão, nesse momento aziago,
O som, a luz, a cor, o céu, o vale, o pego...

E, no entanto, eu talvez, não fora um Ser tão vago,
Talvez não carregasse as penas que carrego,
Se não trouxesse em mim o coração que trago!...

VISÃO DE SEMPRE

Em vão, a Humanidade avança, em vão progride.
Ontem... hoje... amanhã, - sempre a mesma comédia!
A vidinha da Fé, há muito, não dá vide:
Murchou, quando murchou o sol da Idade-Média.

De que vos serve toda a humana Enciclopédia,
Se ninguém sabe onde é que a Igualdade reside?!
Quando chega a Verdade, - a Mentira despede-a;
Quando tréguas pedis, - redobram-vos a lide...

A Civilização... que esplêndida pilhéria!
Fala – em nome do Amor – na justiça da História,
Fala – em nome da Fé – numa ventura... etérea!...

A Civilização... que madrasta irrisória!
Promete o Bem-Comum, e consente a Miséria,
- os que vivem sem pão, os que morrem sem glória...

SONHO MORTO

Amanhã, quando o Sonho em que, a rir, agonizo
Ai! De mim! For a só realidade de um sonho,
Realidade infeliz! Será, talvez, preciso
Morrer... Pois venha a Morte. É vir que eu nem me oponho!

Venha a morte. E, afinal, às vezes, a idealizo
No seu luto profundo, infinito e medonho.
Venha-me! E, antevisão terreal do Paraíso,
Morre Libertadora, é assim que te suponho!

Vós outros não sabeis o que é arder em sigilo
Por um sonho, antevê-lo, e, em pleno engano, em pleno
Sonho, ver outra mão realiza-lo, atingi-lo!

Nem sabeis que é melhor morrer, forte e sereno,
Do que ter de, alma em febre e rosto assim tranquilo,
Gota a gota, beber esse doce veneno...


CANÇÃO DO HOMEM FELIZ

O homem será feliz, quando a misericórdia
de uns socorrer a dor dos outros; socorrer
a fome, a alguns, o luto, a muitos, a discórdia
entre a angústia do que é e ânsia do que quer ser.

Humanidade... ré da Humanidade... Morde-a
a cobiça; envenena-a: a inveja, o mal-querer...
Mas, um dia, soarão os clarins da Concórdia,
as belezas do Ideal, nas glórias do Dever.

Há de a Igualdade ser a proporção perfeita
entre o Menos e o Mais, entre o Pouco e o Excessivo;
há de a Fraternidade unir Bem e Mal.

Liberdade no altar, no idílio e na colheita:
– Fé, Amor e trabalho – o tríplice incentivo
para a Felicidade e a Perfeição final!

A TAÇA
  

Pouco acima daquela alvíssima coluna
que é o seu pescoço, a boca é-lhe uma taça tal
que, vendo-a, ou vendo-a, sem, na realidade, a ver,
de espaço a espaço, o céu da boca se me enfuna
de beijos — uns, sutis, em diáfano cristal
lapidados na oficina do meu Ser;
outros — hóstias ideais dos meus anseios,
e todos cheios, todos cheios
do meu infinito amor...
Taça
que encerra
por
suma graça
tudo que a terra
de bom
produz!
Boca!
o dom
possuis
de pores
louca
a minha boca!
Taça
de astros e flores,
na qual
esvoaça
meu ideal!
Taça cuja embriaguez
na via-láctea do Sonho ao céu conduz!
Que me enlouqueças mais... e, a mais e mais, me dês
o teu delírio... a tua chama... a tua luz...

_____________________________________
¹ A bibliografia deste autor, provavelmente, contenha mais obras.



REFERÊNCIA:


ALMEIDA, José Costa. Hermes Fontes: Antologia Poética. Aracaju. Secretaria de Estado da Cultura, 2004.

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