terça-feira, 16 de julho de 2013

MANOEL BOMFIM: Um utopista nascido no Rio dos Siris¹

Por: Allan de Oliveira.
Contato: allantbo@hotmail.com




Manoel Bomfim pertence à galeria dos cientistas sociais esquecidos e sua obra é quase inacessível ao público.

Manoel Bomfim nasceu em 08 de agosto de 1868 em Aracaju – SE. Sendo filho do vaqueiro Bomfim do Carira e de Dona Maria Joaquina. Aos dezessete anos, mudou-se para a Bahia, onde iniciou o curso de medicina, concluindo o Curso no Rio de Janeiro no ano de 1890. Foi médico da Secretaria de Polícia, tenente-cirurgião da Brigada Policial, subdiretor e Diretor Geral do Pedagogium (órgão que tinha o propósito de coordenar e controlar as atividades pedagógicas do país), Deputado Federal do Estado de Sergipe, redator e secretário de revistas e jornais, escritor de livros, ministrou aulas particulares de Língua Português, Ciências e História Natural, dedicou-se também aos estudos de psicologia, escrevendo sobre o assunto.

No ano de 1894, desiludiu-se com a medicina por não ter conseguido salvar a filha. Abandonou a medicina e se dedicou aos estudos sociológicos e à educação.

Quando exerceu o cargo de subdiretor e, posteriormente, de diretor geral do Pedagogium, Manoel Bomfim iniciou sua atuação no magistério, e se deparou com a triste realidade do ensino público no Brasil. Tempos depois deixou a carreira política para se dedicar, somente, à produção intelectual e literária.

Quando se dedicou ao magistério e aos estudos sociológicos, ele elevou a cultura brasileira e a sua produção de cunho historiográfico e sociológico é considerada como pioneira no assunto.

Entre os anos de 1928 e 1931, o estado de saúde de Manoel Bonfim se agravou, fazendo com que ele sofresse horrivelmente. Porém, mesmo estando debilitado ele continuou trabalhando, produzindo e escrevendo.

Manoel Bomfim faleceu em 1932, aos 64 anos, no Rio de Janeiro.

Suas principais obras foram: Compêndio de História da América, A América Latina: Males de Origem; e Livro de Composição, e Livro de Leitura. Estas duas últimas em parceria com Olavo Bilac.


INFLUÊNCIAS RADICAIS NA OBRA DE MANOEL BOMFIM

Ronaldo Conde considera a sua biografia como uma espécie de aventura em busca de uma utopia, pelo fato de Manoel Bonfim ter sido um humanista e o seu humanismo demonstrava ter uma origem e um destino para um compromisso social e politico, em defesa da cidadania.

Manoel Bonfim acreditava, dizendo-se um utopista porque, segundo ele, um utopista quer mudar o mundo através da luta consciente e do trabalho.

Para os autores que leram e escreveram sobre Manoel Bomfim como, Evaristo de Moraes Filho e Dante Moreira Leite, eles afirmaram que esse sergipano estava “à frente do seu tempo” por não se ter deixado levar pelas teorias racistas da época e por ter utilizado novos instrumentos tais como o marxismo para analisar os males contidos nas formações sociais brasileiras e latino-americana.
O pensamento e a obra de Manoel Bomfim se enquadram perfeitamente no campo intelectual do seu tempo, diferenciando-se, como um contradiscurso, do discurso ideológico dominante.

Vale lembrar que essa sua forma de pensar, provavelmente, se dera por conta dele ter nascido numa época em que os habitantes livres da capital da província de Sergipe viviam em condições precárias, tais como, casebres de taipa, numa cidade com apenas quatorze ruas, algumas travessas e becos e muitos terrenos baldios, repletos de cajueiros.

A verdade é que Aracaju tinha sido fundada sobre um imenso brejal, o que significava péssimas condições de salubridade, insetos, surtos de cólera, varíola, febre amarela, tuberculose e malária. Trata-se de uma época que diz respeito à segunda metade do século XIX, em que a província de Sergipe possuía cerca de oitocentos engenhos o que mostra uma poderosa hegemonia canavieira e oligárquica.

Durante a Bellé Époque Carioca, época da fundação da Academia Brasileira de Letras em 1897, Manoel Bomfim não aceitou fazer parte da lista dos quarenta primeiros imortais. A verdade é que a fundação da Academia assinalava um momento importante do processo de consolidação do campo intelectual brasileiro, havendo um grande valor simbólico, separando os acadêmicos dos não-acadêmicos, fertilizando a formação de uma hierarquia dentro do campo intelectual numa sociedade que dizia e ainda diz defender o problema da desigualdade do país. Foi justamente por esta diferenciação que Manoel Bomfim não aceitou o convite para se tornar um acadêmico.

Em 1899, quando Manoel Bomfim se tornara membro efetivo do Conselho Superior de Instrução Pública do Distrito Federal, ele escreveu o Compêndio de História da América e ganhou um prêmio em dinheiro num concurso. A obra mostra o pensamento crítico do autor, considerado a base para a escrita de A América Latina: Males de Origem. É considerada uma fase em que o autor cristalizou sua visão crítica e radical do processo de colonização imposta pelas nações ibéricas do chamado Novo Mundo que fez gerar a exploração dos povos colonizados, o atraso cultural, sequelas econômicas e políticas, racismo, entre outros fatores, que Manoel Bomfim chamava de parasitismo (roubo das riquezas naturais e escravização de índios e negros). Além disso, na mesma obra, o autor faz uma forte crítica à Guerra do Paraguai e à Guerra de Canudos.

Manoel Bomfim e Olavo Bilac fizeram parceria para publicarem dois livros didáticos, um em 1899, Livro de Composição, e outro em 1901, Livro de Leitura, que foram utilizados em escolas primárias.

Durante o período de 1901 a 1902, entrou em circulação a revista A Universal, tendo como fundadores o próprio Bomfim, e colaboradores como Olavo Bilac, Machado de Assis, entre outros. Porém, infelizmente, ela deixou de circular por conta de prejuízos financeiros.

Fora através da revista A Universal que o pensamento sociológico de Manoel Bomfim, amadurecera, fazendo-o criticar o pensamento capitalista de certos indivíduos como B. Clark e defendendo a ideia de que o capitalismo não poderia jamais se transformar numa ordem fundada na igualdade.

“Repetindo Marx, Bomfim ainda observou que, ao longo do século, a sociedade capitalista nada mais faria que perpetuar a enorme desigualdade entre uma ´´maioria´´, às custas, naturalmente, do empobrecimento crescente dos trabalhadores”. (AGUIAR p. 242)

Através dessas críticas de Manoel Bomfim a B. Clark, passou a surgir a rivalidade entre os dois que se deram através de publicações de artigos.

O pensamento crítico do autor sergipano se fundamentou através do contato com as obras de Karl Marx e dos anarquistas Proudhon, Bakunin, e Kropotkin.

Em sua obra O Compêndio da História da América está contido as ideias socialistas que o autor adquirira.

Na obra A América Latina: Males de Origem são notados uma visão antropológica do autor com relação ao racismo científico (ideias que se proliferaram na Europa e Estados Unidos que defendia a supremacia da raça ariana). E as primeiras palavras para a escrita deste livro se deram quando ele viveu em Paris.

Ao comparar a situação social de outros países com a do Brasil, Manoel Bomfim percebeu que só poderia haver melhoras no Brasil se houvesse investimentos na área da educação. Isso prova que o seu pensamento era avançado para a época.

Sua obra se tornou esquecida, não sendo acolhida, nem reconhecida pelo pensamento social brasileiro, desde a época em que ele viveu até o fim da Ditadura Militar no Brasil, e isso prova que Manoel Bomfim foi um dos maiores pensadores sociais do país.
                                                  

REFERÊNCIAS:

AGUIAR, Ronaldo Conde. O rebelde esquecido: tempo, vida e obra de Manoel Bomfim. Rio de Janeiro. Topbooks Editora e Distribuidora de Livros LTDA, 2000.

Priori, Ângelo; Candeloro, Vanessa Domingos de Moraes; “A utopia de Manoel Bomfim”; Revista Espaço Acadêmico – Nº 96. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/096/96esp_priori.htm; Acesso em 10 / 01 / 13.

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¹ Trabalho apresentado pelos acadêmicos, Allan Tenório Bastos de Oliveira, Edione Oliveira, Gicélia Souza, Géssica Ramiro, Márcia Mendes, e Vanessa Reis, do Curso de Letras-Português da Faculdade São Luís de França, como requisito para avaliação da disciplina Optativa I – História da Literatura Sergipana, ministrada pelo Prof. José Costa Almeida.

2 comentários:

  1. Este espaço é excelente para que haja maior valorização da Cultura e Literatura do nosso Estado, pois são figuras ilustres que fizeram e faz ( SANTO SOUZA) para a Literatura não só Sergipana como Brasileira. Parabéns pela iniciativa !!! :)

    Ah!!! Os trabalhos são fantásticos :)
    Sucesso!

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