quarta-feira, 1 de abril de 2015

SANTO SOUZA - VIDA E OBRA

Por: Allan de Oliveira.
Contato: allantbo@hotmail.com


Fonte da foto: http://www.proparnaiba.com/node/44300

José dos Santos Souza nasceu em 27 de janeiro de 1919 no município sergipano de Riachuelo. Sua mãe, Dona Hermínia, era arrumadeira, mãe solteira e descendente de escravos, dando a luz a esse ícone literário na casa dos patrões. Aos seis anos de idade, Santo Souza começou a trabalhar na área de farmácia e estudou até a 3ª série, se tornando um autodidata com um vasto conhecimento. Com a pouca instrução que tinha, mas com grande talento, escreveu pequenos versos aos 10 anos de idade e aos 15 estudou música, chegando a compor algumas valsas para a namorada. Aos 17 anos passou a residir em Aracaju.

A sua poesia é fundamentada no Orfismo, corrente que trata de temas sacros, o bem e o mal contidos na natureza humana. Através dessa corrente, percebe-se que seus versos buscam mostrar as condições humanas, as divindades e os heróis mitológicos, criando, assim, um elo entre o passado e o presente em que o poeta se torna um intérprete do futuro. Valendo ressaltar que no Brasil houve poucos seguidores do Orfismo e Santo Souza está entre esses seguidores.

A primeira obra de Santo Souza, Cidade Subterrânea, lançada no ano de 1953, fora muito bem recebida por um grande crítico literário da época, Luís da Câmara Cascudo, que inclusive, produziu o seu prefácio.

Durante o Regime Militar a obra Pássaro de Pedra e Sono fora censurada e o livro Decreto Lei Nº 13 que haveria um lançamento na Bahia, não pode ser publicado por conter ideias subversivas.

A obra Ode Órfica lançada em 1956, quarto livro do autor, é considerada a principal, e Deus Ensanguentado, lançada em 2008 houve versão em espanhol.

A grande importância desse poeta que não pode ser esquecido deu ao município de Riachuelo uma escola que leva o seu nome chamada Escola Municipal Santo Souza.

O poeta órfico sergipano foi integrante da maçonaria e recebeu inúmeras condecorações e premiações pelo Estado de Sergipe. Em dezembro de 1995 foi premiado com o Grande Prêmio de Crítica pela APCA (Associação Paulista de Críticos e Arte).

No fim da sua vida, após ter perdido a esposa, suas atividades artísticas foram encerradas, dedicando-se, exclusivamente, à sua família, à leitura de jornais, livros e revistas.

Santo Souza teve contato direto com os poetas brasileiros Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade. Foi membro da Academia Sergipana de Letras, ocupando a cadeira de número 03, e também membro efetivo da Associação Sergipana de Imprensa, bem como Membro Correspondente da Academia Paulista de Letras. Faleceu de câncer de pulmão em sua residência no dia 18 de abril de 2014, enquanto dormia.

OBRAS PUBLICADAS:

* Cidade Subterrânea (1953)

* Caderno de Elegias (1954)

* Relíquias (1955)

* Ode Órfica (1956)

* Pássaro de Pedra e Sono (1964)

* Oito Poemas Densos (1964)

* Concerto e Arquitetura (1974)

* Pentáculo do Medo (1980)

* A Ode e o Medo (1988)

* Obra Escolhida (1989)

* Âncoras de Arco (1994)

* A Construção do Espanto (1998)

* Rosa de Fogo e Lágrima (2004)

* Réquiem para Orféu (2005)

* Deus Ensanguentado (2008)

* Crepúsculo de Esplendores (2010)


ALGUNS POEMAS:

Pescadores, camponeses, mineiros e tecelãs
(condutores de cansaço, desespero e madrugadas);
e operários – doadores de força, vida, agonia e suor para o cimento das soberbas construções, depois de muito lutar, depois de muito sofrer;

Considerando que a terra,
na magia de seus atos
transforma em frutos e seiva
o sangue vivo dos homens;

Considerando que o vento,
pastor das ondas do mar,
e de todos os que lutam
se quiserem respirar;

Considerando que os rios
(o mundo livre dos peixes)
são de todos que têm sede
nesta dura escravidão;

Considerando que a noite
(a semeadora de estrelas)
é de todos que semeiam
sementes e construções;

Considerando, por fim,
que a lei diz textualmente
no artigo primeiro e único:
“quem não trabalha não come”.

Revestidos dos poderes
que lhe confere a Lei 13,
De maio de qualquer tempo,
aprovada pelo povo
em assembléia,

Decretam:

Art. 1º - Fica abolida a miséria
nos lares todos do mundo
e os frutos vindos da terra
serão para os que têm fome.

Art. 2º - Os ventos serão mantidos
à altura das mãos humanas,
como símbolos maduros
da liberdade dos homens.

Art. 3º - Os rios serão o espelho
que há de sempre refletir
as cores arco-irisadas
da total felicidade

Art. 4º - As noites serão o ventre
na imensa fecundação
da luz mansa do futuro,
da redenção dos que sofrem.

§ único - Para sossego geral
hoje serão fuzilados
miséria, fome, opressão.
fabricadores de guerra,
empresários da desordem,
pilotos negros da morte
destruindo gerações,
ódio, trustes, latifúndio
- tudo e todos que ora vivem

Sugando as forças do mundo
Bebendo o sangue do mundo


REFERÊNCIAS:

HOMENAGEM AO POETA SANTO SOUZA, MORTO NA SEXTA. Por: Rangel Alves da Costa. Disponível em: <http://www.jornaldodiase.com.br/noticias_ler.php?id=10411>. Acesso em 09 de jan. de 2015.

Santo Souza (1919-2014) - Deuses Ensanguentados por Orfeu. Disponível em: <http://www.proparnaiba.com/node/44300>. Acesso em 09 de jan. de 2015.

SANTO SOUZA: Um poeta órfico em Sergipe. Disponível em: <http://literaturasergipana.blogspot.com.br/2013/10/santo-souza-um-poeta-orfico-em-sergipe.html> Acesso em: 09 de jan. de 2015.

Santo Souza. Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Santo_Souza>. Acesso em: 09 de jan. de 2015.

Um comentário:

  1. Seus poemas toca-me profundamente a alma.Faz uma leitura da complexidade dos seres no mundo com simplicidade que só é encontrada em escritores com extrema sensibilidade.

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(Fonte da foto : http://bagaceiratalhada.com.br/4-poetisas-sergipanas-e-a-quebra-de-paradigmas-nos-seculos-xix-e-xx/ ) Por: Allan de ...